Diana Wiesner: sobre a natureza das cidades

Conversas sobre a democratização das sustentabilidade para criar resiliência a partir da alma.
“Devemos lembrar que o que observamos não é natureza em si, mas sim a natureza exposta ao nosso método de questionar e perceber.” Werner Heisenberg

Para falar sobre sustentabilidade em um nível urbano, é fundamental um entendimento das particularidades sociais produzidas pelo contexto histórico, econômico e cultural dos territórios que pertencem a cada centro urbano.

Nas cidades latino-americanas, o crescimento informal ocorreu basicamente devido ao deslocamento de populações de áreas rurais para cidades grandes e atraentes, que oferecem oportunidades econômicas e de trabalho mais promissoras. No caso particular da Colômbia, tanto conflitos internos quando a escassez associada a fenômenos ambientais, como escassez de água, contribuíram significativamente para a transferência forçada de famílias inteiras desintegradas, para locais que supostamente ofereceriam maior segurança e estabilidade: cidades grandes nas quais, além de ficar a salvo dos problemas mencionados acima, teriam melhor acesso a instituições governamentais.

As conversas sobre sustentabilidade são dominadas por grupos especializados que estudam esses processos, buscando soluções e respostas, mas isto precisa mudar.

Além daquelas que são deslocadas por conflitos, outras pessoas que não têm acesso à terra urbana instalam-se na periferia da cidade, criando assentamentos humanos não controlados, onde ocorre uma expansão urbana “natural” e não planejada, moldada por seus habitantes. Não por acaso, essas áreas de crescimento informal coincidem com as áreas menos úteis para a cidade, uma vez que a ocupação de terras na periferia urbana ocorreu em locais com difícil acesso, devido a características geográficas desfavoráveis, como áreas em declive, várzeas de rios e encostas íngremes; áreas sem infraestrutura e nos limites da legalidade, uma vez que, segundo a legislação, trata-se de áreas não-edificáveis. Todos esses aspectos tornam esses locais altamente suscetíveis a riscos ambientais e ecológicos, como deslizamentos, incêndios florestais e enchentes, entre outros.1

Bairro Las Violetas, Sul de Bogotá. Foto: Daniel Pineda

Bairro Las Violetas, Sul de Bogotá. Foto: Daniel Pineda

A desigualdade prevalece em cidades latino-americanas, e 57% da população que vive em situação de pobreza trabalham no setor informal.2 Nesse sentido, em cidades onde a economia informal parece ser um denominador comum, é essencial que um conceito integral de sustentabilidade chegue a todas as pessoas, uma vez que, diante de uma expansão urbana que acontece sem qualquer planejamento, autoridades e moradores passam a ser responsáveis pela gestão ambiental de seu lugar e da paisagem.3

Existem atualmente inúmeras propostas que tratam de cidades sustentáveis, nas quais são implementados sistemas de infraestrutura verde e onde recursos naturais são protegidos para garantir a prestação de serviços ao ecossistema. No entanto, esse discurso parte principalmente de profissionais acadêmicos especializados, e de uma porcentagem limitada da população. Como consequência, o planejamento da cidade e as correspondentes propostas de sustentabilidade ficam distante das pessoas que constroem seus espaços em termos de tendências, tal como fizeram, antes deles, outros grupos que se estabeleceram nesses territórios, sem levar em conta aspectos relacionados à agua, à vegetação ou aos espaços abertos. Em vez disso, sua lógica privilegia a sobrevivência e a permanência na terra.

Comuna em Medellín, Colômbia. Foto: Diana Wiesner

Comuna em Medellín, Colômbia. Foto: Diana Wiesner

Na Colômbia, pequenos vilarejos em localidades geográficas nas quais a população é diversificada, às quais o acesso é difícil e onde a topografia é instável foram influenciados por modelos de transformação do espaço público verificados em cidades densamente povoadas, como Bogotá e Medellín. Em Bogotá, esse fato torna-se evidente em uma tendência para espaços com condições ambientalmente desfavoráveis, desprovidos de infraestrutura ambientalmente amigável, de tal forma que, ainda que tenha havido aumento do espaço público, sua qualidade e suas funções ambientais e ecológicas continuam precárias. Assim sendo, em cidades localizadas na Amazônia, como Leticia e outras, encontramos exemplos de espaços públicos que estão longe do contexto social e climático do lugar.

Este problema tem relação com outro muito maior, que é o fato de, na América Latina, o espaço público ainda estar associado à ocupação de espaços impermeáveis. Um exemplo dessa situação é a transformação de muitas ruas em equipamentos para pedestres – um grande avanço em termos de dar prioridade aos pedestres sobre os carros, mas, em termos ambientais, os benefícios limitam-se ao plantio de árvores.

Parque Santander, Florencia, Amazonas

Parque Santander, Florencia, Amazonas. Foto: Desiderio Martínez

Cidades como Monteria, em Córdoba, mostram que há exceções importantes. Houve uma evidente apropriação das margens do rio pela comunidade, e quando o gabinete do prefeito começou a planejar sua recuperação, e com a colaboração da comunidade, a floresta foi preservada e foi criado um espaço comum para a promoção de processos de bem-estar e coesão social, muito embora nenhum desses processos fizesse parte dos princípios de sustentabilidade urbana.

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Rio Sinu, Monteria, Colômbia. Foto: Diana Wiesner

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Rio Sinu, Monteria, Colômbia. Foto: Diana Wiesner

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Nuquí, Colômbia. Foto: Alejandra Artunduaga

Neste caso, foram colocados em prática muitos conceitos que parecem ser do conhecimento apenas de especialistas, mas que de fato fazem parte da vida diária da comunidade. Alguns deles são: resiliência, gestão da biodiversidade, mudança climática, sustentabilidade, desenvolvimento com baixo impacto, serviços do ecossistema e infraestrutura verde, entre outros.

Biodiversidade: de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA – WCMC, 2013), “biodiversidade” é uma palavra composta que deriva de “diversidade biológica”. Diversidade é um conceito que se refere a variações ou diferenças em meio a uma gama de entidades; assim sendo, diversidade biológica tem a ver com variedade no mundo vivo.

Mudança climática (uso de FCCC): uma alteração no clima, atribuída direta ou indiretamente à atividade humana, que muda a composição da atmosfera global, e que se soma à variabilidade natural do clima observada ao longo de períodos de tempo comparáveis (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática – IPCC).

Serviços do ecossistema: este conceito refere-se principalmente aos benefícios culturais ou econômicos que as pessoas recebem do ecossistema.4

Infraestrutura verde, ou ecológica: uma rede estrategicamente planejada de espaços naturais ou seminaturais, e outros elementos ambientais projetados e gerenciados para oferecer uma ampla gama de serviços do ecossistema. Esses serviços incluem áreas verdes e azuis – esta última correspondendo a ecossistemas aquáticos –, e outros elementos físicos em áreas naturais, rurais e urbanas, sejam elas terrestres ou marinhas (Conama, 2014).

A infraestrutura verde utiliza vegetação, solos e processos naturais para gerenciar a água e criar ambientes urbanos mais saudáveis.

A escala da infraestrutura verde varia de instalações urbanas a amplas extensões de terras naturais não desenvolvidas, e inclui jardins de chuva, telhados verdes, árvores urbanas, pavimentos permeáveis, captação de água de chuva, áreas alagadiças, várzeas protegidas e florestas (Agência de Proteção Ambiental – EPA).

Gestão Integrada da Biodiversidade: processo por meio do qual ações voltadas à conservação da biodiversidade e de seus serviços de ecossistema – tais como conhecimento, preservação, utilização e restauração – são planejados, implementados e monitorados em um cenário social e territorial específico, com o objetivo de maximizar o bem-estar, mantendo a capacidade de adaptação de sistemas sócio-ecológicos em escala local, regional e nacional (Instituto Alexander Von Humboldt).

Desenvolvimento com baixo impacto (Low Impact Development – LID): trabalha com a natureza para gerenciar os temporais o mais próximo possível de sua origem. No LID, aplicam-se princípios como a preservação e a recriação de características naturais da paisagem, minimizando o efeito da impermeabilidade para criar locais de drenagem que sejam funcionais e atraentes, para tratar esse fenômeno como um recurso, e não como um produto a ser descartado (Agência de Proteção Ambiental – EPA).

Resiliência: “A capacidade de um sistema, seja um indivíduo, uma floresta, uma cidade ou uma economia, de lidar com mudanças e continuar seu desenvolvimento. Tem a ver com a forma como seres humanos e a natureza conseguem valer-se de choques e perturbações, como uma crise financeira ou uma mudança climática, para impulsionar renovação e pensamentos inovadores.” (Centro de Estocolmo para Resiliência).5

Sustentabilidade: utilizar recursos sem esgotá-los.

Desenvolvimento sustentável: o desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade de gerações futuras de atender às suas próprias necessidades (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática – IPCC).6

Adaptação em transformações: “Um processo por meio do qual os atributos fundamentais de um sistema são alterados em resposta ao clima e a seus impactos.” (IPCCC 2014).

Por um lado, as expressões acima devem ser simplificadas, para que as pessoas que vivem e realizam edificações informalmente possam entendê-las; por outro lado, é preciso reconhecer e analisar as práticas existentes que representam esses conceitos em assentamentos informais. Os bairros informais nas montanhas no Leste de Bogotá são exemplos importantes a considerar. Essa faixa montanhosa é uma área de 13 mil hectares de reserva florestal, graças à riqueza de sua biodiversidade e suas fontes de água, e está situada nos limites naturais a leste da cidade.

Existem aqui bairros muito heterogêneos, com setores privilegiados e assentamentos informais. Nestes assentamento, que ocupam partes menos úteis para a cidade, há exemplos de organização social em que são visíveis propostas com intenção de sustentabilidade.

Os especialistas deveriam trabalhar mais próximo a essa população, não só em consultas, mas realizando processos completos, e deveriam ser mais receptivos, para aprender sobre estratégias de gestão de risco que as pessoas utilizam diariamente, e sobre os problemas ambientais relacionados à sustentabilidade.

Uma das práticas mais claras e mais amplamente difundidas é a utilização de aquedutos locais comunitários que, na falta de um abastecimento de água adequado e de um sistema de esgoto, utiliza os serviços de ecossistema da montanha. Neste sentido, cuidar das fontes de água passa a ter uma relação direta com a qualidade da nutrição, e é por esse motivo que esses processos têm relação com a recuperação, a utilização e os cuidados com os cursos d’água – outra prática importante verificada nas montanhas –, tornando evidente a necessidade do uso sustentável dos recursos naturais.

Há ainda outros interesses relacionados à proteção e à manutenção do meio ambiente, tais como projetos que estimulam o uso da montanha por pessoas que não vivem nessa área, e aumento do espaço público da cidade. Agroparque los Soches, Parque Entre Nubes, e Reserva de la Sociedad Civil del Umbral Cultural Horizontes, entre outros parques e reservas, demonstram a possibilidade de tornar as Montanhas do Leste uma referência para os problemas apresentados aqui, não só para aqueles que habitam essa região, mas para todos os cidadãos.

O conhecimento das práticas existentes nas Montanhas do Leste revela de que forma as comunidades que se defrontaram com os maiores desafios ambientais apropriaram-se da terminologia dos especialistas. Sua localização, nos limites da área da Reserva, torna ainda maior seu impacto sobre o ecossistema, e expõe uma relação singular com o meio ambiente. Ainda que construções formais e informais devam ser suspensas nesses territórios, trabalhar com assentamentos informais é fundamental para que existam cidades sustentáveis. Portanto, em seu discurso, acadêmicos e especialistas devem ampliar o diálogo e as trocas nesses assentamentos.

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Ecobarrio Villa Rosita. Foto: Diana Wiesner

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Ecobairro Villa Rosita. Fotos: Diana Wiesner

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Ecobairro Villa Rosita. Foto: Diana Wiesner

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Um sem-teto, rio Medellin. Foto: Claudio Valcamonico

O debate que envolve a democratização de conversas sobre sustentabilidade agora está aberto. Como exemplo:
Gestão da biodiversidade: atribuindo valor à variedade e a diferenças dos seres vivos, e promovendo relações saudáveis entre eles.
Mudança climática: mudanças climáticas que se tornaram um padrão.
Serviços do Ecossistema: benefícios que nos provê a natureza, como alimento, água e recreação.
Infraestrutura verde: Água – projeto sensível à natureza.
Resiliência: capacidade de recuperar-se de alguma situação.
Gestão de risco: o que as mães fazem continuamente com seus filhos.
Sustentável: aquilo que pode ser sustentado ao longo do tempo.

 

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Pacto para a Fotomontagem das Montanhas, Fundación Cerros de Bogotá (Fundação Montanhas de Bogotá) www.cerrosdebogota.org. Foto: FCB Pact. Fotomontagem Pacto por los Cerros, Fundación Cerros de Bogotá, www.cerrosdebogota.org

Para chegar a processos participativos nas montanhas do Leste de Bogotá, propomos a realização de pactos com a terra e entre os vizinhos, que incluem propostas para comportamentos amigáveis e melhores práticas com o meio ambiente. É assim que a Fundação Montanhas de Bogotá promove o pacto com as montanhas, envolvendo cada habitante da região, individualmente.

Esses pactos buscam restaurar nossa relação com a natureza, e recuperar os ensinamentos dos habitantes de áreas rurais, que vivem coletivamente em situação de risco, e que buscam ensinar práticas sensatas que respeitam os ciclos da vida. Para que isso aconteça, os cidadãos devem reconectar-se com a descoberta daquilo que é simples e vital, utilizando conceitos como “o bem comum”, para produzir comportamentos cotidianos responsáveis em relação ao meio ambiente, tanto eticamente como socialmente.

Em relação a políticas públicas, há indicadores que medem os impactos ambientais da cidade, tais como proximidade, igualdade, extensão de espaços públicos em área de influência, acessibilidade para pedestres e segurança pública. É importante que as melhores práticas ambientais façam parte de políticas públicas. Igualmente importantes são a consolidação da paisagem como patrimônio comum, e a implementação de novos indicadores de qualidade, como os “indicadores de resiliência da alma”, propostos pelo Professor Wilches.

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Comuna em Medellín. Foto: Gustavo Restrepo

Atendendo ao clamor de um país que se prepara para um período pós-conflito, é essencial ter como objetivo a construção de comunidades que se apropriem de uma cultura eco-amigável, assim como reconhecer, de uma perspectiva humana, a existência de práticas ambientais em diferentes assentamentos urbanos, para fortalecer o diálogo que levará a uma transformação real da paisagem, com a participação do público.

Diana Wiesner – Bogotá
Sobre a Natureza das Cidades

Notas:

1 — http://www.revue-projet.com/articles/2015-10-motta-sobotova-colombie-quand-le-bidonville-interroge-les-urbanistes/

2 — Patricio Zambrano Barragan. IADB (Inter-American Development Bank) Resilient, Inclusive and Innovative Cities. International Symposium on Urban Ecology, Bogota, 2015.

3 – Não se tenta aqui promover ou estimular ocupações de terra informais, mas sim de buscar soluções gerais para modelos de habitação nessas áreas.

4 — http://www.unesco.org.uy/mab/es/areas-de-trabajo/ciencias-naturales/mab/programa-mab/servicios-ecosistemicos.html

5 — http://www.stockholmresilience.org/21/research/research-news/2-19-2015-what-is-resilience.html

6 — https://www.ipcc.ch/pdf/glossary/ipcc-glossary.pdf

 

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