Sara Madueño e o caso “LIMA, A LINDA”

O 1º Congresso Internacional de Paisagem Urbana apresentará casos bem-sucedidos e emblemáticos no resgate da Paisagem Urbana de Lima, capital do Peru.
Por Sara Madueño Paulet

Nosso continente será a sede do “1o Congresso Internacional de Paisagem urbana”, a ser realizado na cidade de São Paulo, Brasil, nos próximos dias 7 e 8 de dezembro. Urbanistas de grande prestígio apresentarão experiências bem-sucedidas de metrópoles que resgataram sua paisagem urbana, recuperando sua identidade, sua personalidade, restabelecendo o conceito original de cidade como o habitat do cidadão, e não como infraestrutura para o automóvel e possível vitrine publicitária.

Idealizado por Regina Monteiro, renomada urbanista, mentora da Lei “Cidade Limpa” de São Paulo, o Congresso produzirá a declaração “Carta às Cidades”, em preparação para a 2a edição do Congresso Internacional de Paisagem Urbana, a ser realizado na cidade de Barcelona, em 2016. Hoje essa lei é referência mundial para o planejamento e a regulamentação da paisagem urbana, uma vez que conseguiu reduzir ao mínimo, em tempo recorde, a poluição visual produzida por peças de publicidade e propaganda nessa metrópole.

lima-620x413Nesta primeira edição, serão abordadas no Congresso experiências bem-sucedidas e emblemáticas de resgate da paisagem urbana de cidades, como São Paulo, Barcelona, Bogotá, Rio de Janeiro, Fortaleza e Ribeirão Preto, entre outras, apresentadas pelos urbanistas responsáveis por esse trabalho de resgate. Serão apresentados também casos como o de Lima, uma cidade milenar, com uma identidade cultural rica e única, que combina um Centro Histórico – de projeto urbanístico e arquitetura de inspiração renascentista, patrimônio da humanidade, com mais de 50 monumentos antigos, pré-hispânicos (huacas), alguns deles construídos há mais de quatro mil anos, reconhecidos como patrimônios histórico-culturais – com a Lima moderna, em grande parte improvisada, que, nos últimos anos foi surpreendida por um crescimento vertiginoso, quando o turbilhão de automóveis e a propaganda publicitária indiscriminada invadiram seu espaço público, poluindo visualmente sua paisagem urbana, menosprezando sua identidade.

Por sua natureza, a paisagem urbana é a essência da identidade de uma cidade, o habitat do cidadão, sendo, portanto, um direito humano inalienável, inerente e pertencente a ela; é intransferível, porque não é possível vendê-la; é imprescritível, por ser um direito perene. É apenas modernizável, uma vez que seu objetivo é oferecer qualidade de vida sempre melhor a seus cidadãos.

A paisagem urbana é formada por espaços públicos, construções em seu entorno, espaços livres de edificação – edificáveis ou não – e todos os elementos naturais ou artificiais localizados sobre esse espaço ou em seu espaço aéreo. Uma paisagem urbana limpa torna a cidade legível, expondo sua identidade e sua personalidade.

Resgatando “Lima, a Linda

parque-lima-peruO caso de Lima requer atenção especial. Lima é a quinta metrópole mais populosa da América Latina: seus 43 distritos abrigam cerca de 10 milhões de habitantes, mas quando se leva em consideração sua continuidade urbana até Callao, transforma-se em uma megalópole. Portanto, estamos falando de um complexo urbano de 12 milhões de habitantes. Uma cidade com 3,5m2 de espaço público por habitante – menos da metade do padrão mínimo mundial, 8m2 por habitante – que está prestes a ultrapassar sua capacidade e tornar verdadeiro o incômodo adjetivo com que a caracterizou Salazar Bondi: “Lima, a Horrível”.

Desde a década de 1960, e mais intensamente na década de 1990, Lima foi surpreendida por um crescimento repentino não planejado e que, fascinada pelo automóvel, subordinou o transporte público e o pedestre às necessidades desse meio de transporte, em detrimento do cidadão comum. Oprimida pelo frenesi do mercado, aceitou ser assolada por peças de propaganda e publicidade monumentais e ofuscantes. A cidade já não é legível, já não pode ser captada visualmente pelo cidadão comum; a propaganda opressiva causa incerteza geográfica e tem impacto negativo sobre a saúde física e psicológica de seus habitantes. Estima-se que chegue a aproximadamente 90% a proporção da propaganda publicitária ilegal em Lima – ilegalidade acobertada sob o disfarce de empresas de publicidade famosas, que vêm-se apropriando do cenário da cidade, distorcendo e cobrindo a visibilidade da paisagem urbana, deteriorando e poluindo o meio ambiente. Apenas com o resgate de sua paisagem urbana a cidade poderá voltar a ser “Lima, a Linda”.

Lima requer urgência na criação de uma infraestrutura intermodal de transporte público que atenda a toda a sua população, acompanhada dos serviços básicos necessários ao cidadão comum em sua vida diária, enquanto transita em um espaço público acolhedor, legível, harmonioso, belo; onde o pedestre seja protegido contra o automóvel, com uma sinalização que o oriente e lhe dê preferência, com calçadas amplas e seguras, de acordo com a densidade de sua utilização, com espaços públicos mobiliados, com ciclovias e calçadões integrados e bem cuidados etc., visando o conforto do cidadão e transmitindo-lhe padrões estéticos urbanos que enriqueçam sua vida.

O objetivo deste Congresso – o primeiro do gênero em nosso continente – é trocar ideias, compartilhar projetos, avaliar experiências bem-sucedidas que possam ser referências para empreendimentos de resgate da paisagem urbana em outras cidades.

 

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